Oficinas do Convento

A obra de Tiago Fróis é um diálogo permanente entre a força dos elementos e a sensibilidade do homem. Perturba porque não concorda. Como se já não houvesse mais ninguém para nos lembrar a água que corre funda sob a epiderme da terra. Pedras que nos incomodam e simultaneamente nos seduzem pela força da evidência. Experiências e laboratórios habitados por um olhar frontal. Quando já quase nada funciona num mundo calculado, oferece-nos o contrapeso do sensível.

Rui Horta, Montemor-o-Novo, junho 2013

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Oficinas do Convento. Montemor-o-Novo. Foto @ ACP

Entrevista a Tiago Fróis por Rui Horta

Rui Horta- Gostava de falar da tua dinâmica de criador e da tua dinâmica de gestor de uma organização como as Oficinas do Convento. Como as equilibras?

Tiago Fróis– À medida que fui ganhando responsabilidade na máquina, fui tentando resolver as minhas necessidades criativas mais rapidamente e mais pragmaticamente, optando por um ready made, um discurso bastante directo, sem implicar muito tempo a executar, nem carecer de virtuosismo técnico. Chamo-lhes aquários, pois têm funcionado como trabalho pós laboral que me vai dando energia para o trabalho de direcção e programação das Oficinas. Aquários porque é um hobby, mas são importantes e cumprem essa função. Servem para carregar baterias e expor discursos e inquietudes. A execução das coisas que nós queremos carregam-nos.

R – Esta situação também influencia o teu trabalho artístico, em termos de método?

T – Sim, necessariamente.

R – E em termos de discurso?

T – Talvez daqui a algum tempo eu seja capaz de ter essa percepção. Mas acho que em termos de discurso nem por isso. Em termos de método, sim. A execução dos projectos depende de arranjar maneiras simples, muito eficazes, super eficientes, com poucos elementos e montagem rápida, que englobem também a componente técnica.

R – Consegues detectar, nestes últimos anos de criação, um caminho? Conhecendo o teu trabalho relativamente bem, apercebo-me que há toda uma pesquisa por tudo o que é analógico. Nomeadamente pelo som e por tudo o que se pode considerar o universo sonoro.

T – No outro dia pus-me a pensar nisso, em quando começaram as minhas peças sonoras, e são de 2001, quando ainda quando estava a estudar… Construí uma cadeira, fiz umas fotografias, e já tinha a componente sonora. A cadeira é a cadeira, mas o importante é a faixa sonora que construí para ela, para que fosse impossível estar lá sentado, tornando-a super incómoda. E já vem daí… Ultimamente este universo tem vindo a crescer com as pessoas que se aproximam e com os amigos que fiz no caminho. Tudo muito por influencia do nosso colectivo, do João Bastos, e de pessoas que fui conhecendo, do Nuno Rebelo, do Marco Franco. Fomos programando coisas e estas programam-se também em função de colectivos que têm uma necessidade. Iniciámos este percurso das sonoesculturas e seguramente teve uma influência bastante forte nas coisas que fui fazendo ultimamente.

R – Fala-me de laboratório.

T – Sim, laboratórios, ensaios, experiências. O laboratório é o sítio onde se fermentam estas coisas, onde se cria, experimenta, onde se arrisca. Grande parte das minhas peças, pelo menos as últimas, têm esse caracter experimental de ensaio, não só científico, mas também de ensaio, de pensamento, de narrativa. Isso também se prende com um passado bastante ligado à fotografia, à câmara escura, e ao processo quase científico de trabalhar. Muitas vezes a narrativa está afastada e estamos só debruçados na técnica para chegar a uma narração clara, para fazer coisas tecnicamente boas, para discursar melhor.

R – A fotografia foi algo muito inicial. Muito teu.

T – Sim, talvez uma das primeiras coisas, desde os 14/15 anos, primeiro “com passarinhos”, e depois com outra atitude. Para mim a fotografia é parecida com o video. É uma coisa que não se prende a um instante, é uma fracção de tempo seleccionada pelo tempo de exposição. Mas é uma fracção de tempo, e o tempo é relativo. E consoante a escala dos seres, nós somos uma fracção de tempo numa escala que nós mesmo fizemos.
Trata-se disso. Aquelas fotos da Bélgica que também têm som, têm a ver com isso. É também a geração, a criação de esculturas, é o que vejo também como fotografia… a criação de espaços. Não só a documentação dos espaços, mas também a criação daquele espaço. Porque eu estou a seleccionar e sou eu que estou a criar aquele espaço que estou a fotografar. Tal e qual como a paisagem, uma criação da nossa cabeça, uma coisa do pensamento. Vejo a fotografia como um ready made visual e uma atitude informal. São instalações; muitas vezes as imagens que se podem fazer. Não fotografo sempre com essa atitude, mas muitas vezes fotografo com essa atitude informal quando estou a fazer objectos.

R – É quase como uma necessidade parar o olhar numa coisa que passa rápido demais, elevá-la o seu potencial máximo.

T – Sendo a documentação de uma situação, eu estou a dar-lhe essa  potência narrativa com o registo que estou a fazer. O registo é  fotográfico, mas podia não ser fotográfico, podia ser video. Mas nesse caso é fotográfico e é quanto baste. Está documentado, logo existe. É como fotografar uma pedra no campo: pode eventualmente ser uma instalação, pode não ser só fotografia. Pode ser uma instalação daquela pedra naquele local.

R -Sustentabilidade. Queres falar disso? Eu associo muito a sustentabilidade com o teu trabalho e com a tua perspectiva de vida.

T – Sustentabilidade…Eu não sou nem do digital nem do analógico, gosto de utilizar ferramentas e utilizá-las para os propósitos mais apropriados que elas foram concebidas. A nível do digital não sou “bem formado”, eventualmente sê-lo-ei daqui por uns anos, mas de momento, e em termos de recursos na criação das minhas peças, só me consigo lembrar de coisas que consigo fazer. Todos os objectos estão ao meu alcance técnico e dos meus recursos. E os meus recursos passam por situações analógicas, eléctricas e ópticas.

R – Tens uma lado oficinal muito forte, de construtor.

T – Sim, e isso leva-me também ao método de criação, porque a própria técnica leva à forma e a forma puxa pela técnica. É uma espécie de pescadinha de rabo na boca, não se sabendo o que leva ao quê. Ao estar a construir qualquer coisa, pelo método que isso implica, vão-te surgindo ideias para outras coisas, e isso nunca mais acaba. Enquanto que, se chegar a uma oficina e se mandar fazer a peça, não penso em mais nada.

R – No teu trabalho há sempre um registo de natureza presente de uma forma ou de outra. Seja de terra, ou de rio, ou de vento, ou do próprio ar na propagação das ondas sonoras…

T – São coisas simples…

R – Mas há uma força, uma âncora…

T – Mas não penso nisso porque é uma evidência… Mas também não é uma obsessão. Apenas fruto do ser. É uma preocupação, pois somos parte da natureza. Eu normalmente não falo nisso porque é um facto adquirido e assimilado. Está intrínseco e seria um disparate falar nisso.

R – É algo sempre presente…

T – Naturalmente. Há peças só à volta disso e é o que elas comunicam. Acho pertinente mostrá-las a outras pessoas e desencadear discursos na cabeça de quem as vê. Também tento criar objectos que tenham uma linguagem o mais directa possível. Têm as suas metáforas, mas são metáforas muito literais.

R – Como te consideras como criador? Consideras-te um criador de uma só disciplina, ou um transdisciplinar? Consegues definir-te em termos da linguagem?

T – Eu não penso se sou transdisciplinar, ou se sou do video, ou se sou da fotografia. Vou utilizando as disciplinas conforme as necessidades dos discursos, conforme são, ou não, pertinentes. Não sou capaz de criar uma peça para a qual desconheço a tecnologia que vou precisar de aplicar para a construir. Portanto, o meu conhecimento da existência das técnicas , sejam elas quais forem, desde o corte laser ou à cerâmica, são recursos que eu sei que existem e isso faz com que seja possível a concretização das ideias. Não consigo criar desprendido disso, e está sempre afecto à engenharia, à maneira de construir, à sustentabilidade física das coisas.

R – Há um lado teu oficinal sempre presente.

T – É muito pragmático e, grande parte das vezes, é fruto da necessidade e da função que tem de ter, e que tem de ter aquela resistência elétrica, que deve ser presa desta maneira porque não podia ser de outra, porque é a mais prática, a mais económica e a mais eficiente. Um pouco como a boa arquitectura.

R – Fala-me da questão da alteridade no teu trabalho.

T – O lugar da arte e das artes visuais, sejam elas quais forem, é comunicar. As minhas preocupações são ecológicas, telúricas, da natureza, etc. Mas também da cidade, porque na cidade acho que existe a necessidade de aproximar as pessoas daquilo que são as suas
raízes, não se desprendendo daquilo que é o moderno e também daquilo que é o tradicional. É a preocupação de conceptualizar a palavra tradicional de outra maneira da que está convencionada, no senso comum. Tradicional está associado ao conservador, ao antigo, ao parado, ao não evoluído, estagnado. Não tenho nada a ver com isso. Eu e muitos outros artistas pretendemos acordar, agitar as pessoas e metê-las a pensar em ícones e símbolos que comuniquem, e que lhes transmitam essas inquietudes, ou pensamentos simples tais como o do aprisionamento de uma pedra.

R – Sentes que o teu trabalho tem raízes numa determinada corrente estética ou sentes-te totalmente independente e imune? Ás vezes olho para ti e tento traçar uma família. Por exemplo, penso na Arte Povera…

T – Tenho um afecto bastante grande pela Arte Povera bem como pela Land art. Gosto da arte inserida na paisagem e das coisas efémeras. Gosto das micro intervenções, e daí a fotografia. Muitas vezes pode estar-se a fazer um discurso no campo que não é para ser visto por ninguém, mas estás a registar, e o resultado vão ser as imagens que são fotografias. Mas, se as fotografias em si mesmo são o objecto que resultou, não são propriamente a obra em si; a obra em si é o que elas documentam. E é essa, por exemplo, a atitude da fotografia na Land art e na Arte Povera.

R -Há um lado teu que considero muito pertinente, que é o da agitação…

T -Desde os meus 11 anos que tive uma ligação à Quercus. Durante muito tempo, tivemos aqui um núcleo bastante forte. Fizemos trabalho de campo durante, 6/7 anos, bastante intensivo. Durante dois anos realizamos acampamentos quase todos os fins de semana, levantamentos de campo, prospecção, pegadas, levantamento de bicharada, o que me clivou bastante nesse aspecto. Nos dias de hoje é cada vez mais pertinente associarmo-nos a esse tipo de iniciativas.

R – Há um lado documental no teu trabalho que se sente, sobretudo como líder de uma estrutura em que vocês são extremamente preocupados com essa mesma documentação. Mas a documentação em si não é um objecto artístico. Que fronteira estabeleces entre a documentação e a criação de um objecto artístico? Existe uma zona de transição? Consegues defini-la?

T – Consigo. Por exemplo, eu agora estou a fotografar espectáculos de marionetas. Há fotografias que faço que sei que são pinturas e há outras que documentam aquilo que é o que é. O que faz com que um objecto tenha ou não autonomia e que tenha ou não outro discurso dentro dele, é aquilo que ele representa. Se o objecto vai para além daquilo que é, é um objecto artístico. Se não, é a documentação de um outro, ou de outra coisa. Essa é a fronteira. De qualquer das formas, sempre que é possível construir discursos dentro da própria documentação, tais como relações e conflitos dentro da imagem, isso torna as imagens muito mais interessantes.

R – Voltando à questão da família ou das famílias, se eu te disser a palavra Virginia, o que é para ti?

T – É a minha mãe.

R – Mas é algo mais que a tua mãe.

T – Mas é sobretudo a minha mãe, claro que uma mãe influencia muito um filho.

R – Mas uma mãe que é artista visual e um filho que também é… temos um caso complicado.

T – (sorrisos…)

R – Fala-me da tua juventude

T – Isso é falar de ribeiras cavadas, da vegetação mediterrânica cerrada, das estevas, das pedras grandes, da ribeira de S. Cristóvão, do Barrancão, dos Baldios, das Minas de Jungens…

R – Tudo bruto, tudo forte…

T – Isso talhou claro… essa proximidade, a teluricidade vem dessa experiência de gostar de estar no campo e fazer quilómetros e quilómetros e destruir três Renault 4 a bater o concelho, conhecer praticamente todos os caminhos de terra a recolher pedras, a tirar fotografias.

R – Nunca sentiste necessidade de viver numa grande cidade?

T – Nunca, nunca senti. Quando lá estive foi para estudar. Nunca estive consciente de que vivia em Lisboa. Sempre vivi cá e ia até lá estudar. Não vivia verdadeiramente em Lisboa.

R – Mas tens consciência que tens um lado muito urbano, ou seja, tu és um tipo do teu tempo, és uma pessoa que está dentro da música do teu tempo, está dentro das tecnologias do teu tempo, estás na internet constantemente, estás nos blogs, estás no facebook.

T – Vivemos num tempo em que tudo isso é possível. Isso faz com que eu precise menos de estar próximo geograficamente do centro. Nós estamos cada vez mais perto do centro.
R – Sinto que as Oficinas “de antes” e estas, são diferentes… Estas são mais jovens, mais urbanas, com mais tensão, com mais fricção.

T – Esta é a 2ª geração. É o pessoal que cresceu nos anos 80 e 90. Uns foram estudar para fora e outros não. Outros ainda, tiveram o contacto ou foram sempre acompanhando as nossas actividades, porque houve sempre a circulação dos que estavam e dos que traziam. Sempre houve essa circulação. A nossa formação foi feita muitas vezes por afinidade, sendo nós, frequentemente, os diretores dessas atividades e os seus formandos. Por exemplo, a Sonoscultura vem de algo que o João Bastos começou a organizar, as master classes, vocacionadas para um trio, bateria, contrabaixo e piano… Num certo momento deixou de fazer sentido fazer algo tão vocacionado para o instrumento, porque isso é uma coisa que já existe noutros sítios e, juntamente com o contacto com o Inhaqui e a Vanessa (que também cá estiveram) houve uma descoberta comum à volta dessas questões da eletrónica simples, da alteração de instrumentos e da criação de objetos a partir, por exemplo, do lixo, dos brinquedos e de diversos artefactos eletrónicos. Desenvolvemos uma programação de acordo com “o que nós queremos aprender agora”… Para tal tínhamos que trazer um indivíduo com um determinado perfil, e isto punha-nos em contacto com comunidades que tinham as mesmas necessidades que nós. Íamos procurar interessados em fazer esse curso, esse modo de operar, pois de outra forma não haveria público para tal. Assim, foram crescendo movimentos, fizeram-se muitas amizades e conheceu-se gente, circulou-se…

R – Existe algo que marca muito as Oficinas e que é essa ideia de trazer à superfície tanto quanto possível, a fruição do pensamento em várias áreas. Algo que se completa com actas e documentação vária. Será que tu como artista te dás este mesmo tempo para o pensamento crítico, até uma vagueza alentejana… Ou as tuas obras são gritos intuitivos?

T – Não, não são gritos intuitivos, são sínteses. Porque quando estou a fazer um trabalho estou a fazer o outro também. Quando estou a trabalhar nas Oficinas estou a trabalhar para mim também, pois estou a ter experiências, estou a refletir, estou a elaborar pensamentos. A execução de objetos artísticos é um momento de síntese de essas outras reflexões, mas são igualmente momentos de oficina. Não são momentos filosóficos, são momentos de execução de ideias e de conceitos que já estão digeridos ou semi-digeridos.

R – O que é para ti a tertúlia?

T – A tertúlia é um encontro. Como um jantar. E as refeições são tertúlias também. Espaços ótimos para a criação de ideias e para a geração de novos projetos, ideias comuns a várias pessoas. Foi algo que eu desde sempre gostei de fotografar enquanto objetos artísticos, enquanto instalações. Tenho muitas imagens de jantares.

R –É engraçado tocares nas refeições, porque te estava a levar para algo que eu considero importante, aqui no Alentejo, em Portugal em geral, e nas comunidades artísticas em particular, sobretudo nas do Mediterrâneo. Temos uma herança/memória incorporada em nós de uma forma de estar que passa por estarmos juntos, partilharmos refeições juntos, estarmos na rua e vivermos fora. Quando vejo as Oficinas, até porque as Oficinas têm este lado muito efémero, todo este Convento é efémero, todo este pátio é efémero, há um lado de vivência exterior.

T – É o encontro com o exterior, ou o encontro no exterior. É mais uma vez o contacto com os elementos. Só nos ocorre fazer alguma coisa com o vento se sentirmos o vento… A partir dai ocorre-nos, ou não, coisas para fazer com isso. Não é uma necessidade, é uma consequência do Convento ser uma ruína. Mas também é possível porque temos um óptimo clima que permite que viver com muito pouco. Se calhar, se tivéssemos em Cabo Verde, com menos chegaria. Se calhar faríamos a mesma coisa só com um terreiro, simplesmente porque não precisaríamos de tanto teto já que os invernos apesar de tudo são muito menos rigorosos. Trata-se de fazer o possível com o que existe. Se tivéssemos mais, também faríamos mais…

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