Art in society

Left Hand Rotation
Alfama is Marching, 2017

A documentary of Left Hand Rotation for the project ALFAMA É MARCHA.

Months before the beginning of the Popular Saints begin the trials of the popular march in Alfama neighbors of all the generations submerge in the preparations. A sense of belonging permeates every alley in a neighborhood in a fierce process of gentrification, where many of its former residents have already been forced to leave their homes, without an option of permanence that avoids the painful rupture of their neighborhood ties.
But June is back and the old and present residents of Alfama are reunited, moved by this annual cadence that takes them back to feel part of the neighborhood. How to prolong this state of mind during the rest of the year? What does the march of Alfama mean for the neighborhood? To whom does this patrimony belong? How to avoid that the memory and the forms of collective dwelling are replaced by a folkloric version of the common life of the neighborhood for tourist consumption?

Left Hand Rotation
Alfama é Marcha, 2017

Um documentario de Left Hand Rotation para o projeto ALFAMÁ É MARCHA.

Meses antes do começo dos Santos Populares começam os ensaios da marcha popular em Alfama e vizinhos de todas as gerações se submergem nos preparativos. Um sentimento de pertença invade cada beco de um bairro em feroz processo de gentrificação, onde muitos de seus antigos moradores já foram forçados a abandonar suas casas, sem uma opção de permanência que evite a dolorosa ruptura de seus vínculos barriales.
Mas Junho está de volta e os antigos e atuais moradores de Alfama se reencuentran, movidos por esta cadencia anual que os leva de novo a se sentir parte do bairro. Cómo prolongar este estado de ânimo durante o resto do ano? Qué significa para o bairro a marcha de Alfama? A quem pertence este património? Cómo evitar que a memória e as formas de habitar coletivas sejam substituídas por uma versão folclorizada da vida em comum do bairro para consumo turístico?


Como um documentário sobre as marchas se tornou num filme sobre a “perda” de Alfama

Projecto “Alfama é Marcha” procura preservar as memórias do bairro lisboeta. Ao falar sobre a tradição, o colectivo Left Hand Rotation cruzou-se com outra coisa. “Alfama é Marcha” — mas também é gentrificação, turismo excessivo e “descaracterização”

Texto de Mariana Correia Pinto • 22/10/2017 – 15:50. PúblicoTexto de Mariana Correia Pinto • 22/10/2017 – 15:50. Público

Quando o colectivo Left Hand Rotation se fez às ruas de câmara na mão, levava no guião apenas o desafio da Associação do Património e População de Alfama (APPA): produzir um documentário sobre as marchas do mais antigo bairro de Lisboa. Mas ao falar sobre as marchas já o assunto era todo o bairro — e um sentimento de “profunda tristeza e perda” perante aquilo que ali se passa.

Di-lo o colectivo espanhol chegado à capital portuguesa há já seis anos, disseram-no os entrevistados, repete-o Maria de Lurdes Pinheiro, a presidente da APPA, que há coisa de um ano deu início ao projecto “Alfama é Marcha”, criado para envolver a população com o seu território e valorizar aquele património cultural, material e imaterial.. “O bairro está no caminho da descaracterização e há um sentimento de perda muito profundo [entre os moradores]”, vai contando num tom de voz a variar entre a revolta e a tristeza.

O documentário de 40 minutos, já disponível online, não nasceu para ser um filme sobre a “gentrificação” lisboeta e do bairro de Alfama em particular. Os espanhóis — que preferem apresentar-se como um colectivo e não fazer apresentações individuais — aceitaram o desafio de Maria de Lurdes porque eles próprios, também moradores do bairro, estão “preocupados com o que está a acontecer”, contou uma das activistas ao P3. Imaginaram que ao explorar o sentimento à volta das marchas podiam também fazer um retrato de outra “forma de resistência”.

Mas ao conversar com os moradores sobre a tradição dos Santos Populares os depoimentos iam todos no mesmo sentido e traçavam um diagnóstico claro: “Tristeza com o que se passa, a falta que quem já saiu faz, os problemas de habitação. Tudo está conectado”, constataram. A gentrificação não é tema novo para os Left Hand Rotation: recentemente apresentaram um pequeno documentário sobre o mesmo tema na Rua dos Lagares, já tinham denunciado o que se tem passado nas ilhas do Porto, na freguesia do Bonfim, há menos de um ano apresentaram Terramotourism, também sobre uma “Lisboa abalada por um sismo turístico”. Nos últimos tempos, têm visto alguns movimentos a tentar combater o fenómeno — mas dizem que o problema está longe de se esbater e chamam a atenção para uma outra tendência: “Com a expulsão de pessoas dos centros, as periferias começam a sofrer. A cidade é uma rede, um problema num lado afecta os outros.”

Maria de Lurdes Pinheiro tem um nome forte para aquilo que se está a passar. “Bullying, os moradores estão a ser vítimas de bullying.” À APPA têm chegado muitos pedidos de ajuda de gente que se vê “completamente sozinha e perdida”. Uma moradora que se recusou a abandonar a sua casa contou-lhes que viu a água e luz serem-lhe cortadas. Outros deparam-se com obras no exterior do edifício como uma pressão nada subtil para a sua saída. “É uma dor de alma ver isto”, aponta, “estas pessoas não têm para onde ir”.

O esquecimento de Alfama não é de hoje. Quando a associação foi criada, há 30 anos, já tinha como foco “chamar a atenção da Câmara Municipal de Lisboa” para os problemas ali existentes. “Apesar de ser um bairro histórico, o mais visitado de Lisboa, sempre foi muito mal tratado a nível político”, denuncia. Maria de Lurdes Pinheiro gostava de ver mais apoios, estatais ou municipais — mas o que aconteceu foi o contrário. Alfama “começou a perder há uns 15 anos”, quando a “câmara deixou de reabilitar e começou a vender o seu património”. Depois veio “a queda do comércio, fecharam-se farmácias, a esquadra, algumas escolas”. A lei do arrendamento urbano, de 2012 veio “piorar tudo”. Alfama “foi-se esvaziando”.

É um problema anterior ao turismo. Mas aumentado com ele. “Não estamos contra o turismo, estamos contra esta forma de fazer as coisas. Prédios e prédios vendidos para esse fim e os moradores sempre esquecidos”, lamenta a presidente da APPA que durante 16 anos esteve à frente da junta de Santo Estêvão (Alfama), freguesia da CDU que com a reformulação de 2013 se fundiu com mais 11 para formar Santa Maria Maior.

Além do documentário, o “Alfama é Marcha” — com financiamento do programa BIP ZIP — tem também duas exposições, na Sociedade Boa União e na Galeria Perve, onde se mostra o trabalho de um ano de projecto (o financiamento termina este mês, a APPA já prepara nova candidatura). Nos dois espaços pode conhecer-se melhor o património e a população de Alfama — e há até um conjunto de trajes para uma pequena viagem no tempo. Para “preservar memória” e a sonhar com algo maior: “Quem sabe um dia possam estar num museu”.

http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/24835/como-um-documentario-sobre-marchas-se-tornou-num-filme-sobre-perda-de-al

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